Resiliência não basta

Alberto Fernando Becker Pinto

Publicada em 30/04/2020 - Revista Expansão

De acordo com o dicionário, Resiliência é a propriedade de um corpo de voltar à sua forma original, depois de ter sofrido deformação elástica ou choque. No sentido figurado, pode ser entendida como a capacidade de quem se adapta às intempéries, às mudanças de cenários, aos infortúnios.

Escrevo em meio à corona crise. Entre muitos sentimentos de apreensão, percebo nas pessoas uma angústia muito intensa,alimentada pela vontade desesperada de que as coisas possam “voltar ao normal”. Buscam ser resilientes para enfrentar a situação extremamente delicada que se apresenta. É natural, pois devemos ter uma resistência muito forte para absorver este verdadeiro nocaute que estamos sofrendo, para conseguirmos nos recuperar e superar os muitos obstáculos e adversidades. Mas, embora seja um raciocínio legítimo, há um problema nisso.

É que só a resiliência não basta. Porque a propriedade de voltar a ser o que era não vai ser suficiente – talvez, nem sequer possa ser muito útil –, num mundo no qual aquilo que era antes não existe mais. Há um paradigma a ser quebrado aí.

Francamente, não sei quais evidências ainda são necessárias, o que mais precisa acontecer para que as pessoas se convençam, de uma vez por todas, que o mundo (e o mercado, portanto) não será mais como o conhecíamos. No entanto, noto que muitos ainda vivem instalados na referência de “normalidade” de antes do COVID-19. Compreendo o desejo de que tudo voltasse a ser exatamente como era. O problema é que, simplesmente, isso não vai acontecer. Nessa hora, a grande questão que se impõe é: como eu vou me preparar e agir para um novo conceito de “normalidade” (que ainda não sabemos ao certo qual vai ser)?

É certo que, mais cedo ou mais tarde, a crise vai passar. Todavia, um dia as guerras também terminaram, também passaram. Fazer essa travessia vivo é fundamental, evidentemente. Mas não é tudo. E, substancialmente, não garante que você e sua empresa vão conseguir seguir em frente, fazendo tudo do mesmo jeito que sempre fizeram.

A primeira reação, pelo tanto, tem que ser mental. Ter compreensão profunda de que mundo mudou, e teremos que mudar junto com ele. Caso contrário, talvez a crise não passe para nós. Não faz sentido simplesmente “ficar em casa” e ser resiliente, esperando tudo voltar a ser como era. A capacidade de retornar à nossa forma original não basta, porquanto a realidade de antes não existe mais. Teremos que aprender a olhar o novo, com os olhos do novo. Como disse Lulu Santos: nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.